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  • Gabrielle Canena

A mensagem por trás de 'This is America'

Atualizado: 22 de Jul de 2019




Donald Glover, também conhecido pelo nome artístico Childish Gambino, é um rapper, ator, roteirista, ator, humorista e músico.

Ele é conhecido por participar do grupo Derrick Comedy, por escrever para o seriado 30 rock, pelo seu papel como Troy Barnes na série cômica Community e, principalmente, pela criação da série Atlanta, exibida pela FX. Através da série “Atlanta”, Donald recebeu dois Emmys, por melhor ator e melhor direção em séries de comédia, e foi renovada para a segunda temporada.

Na música, ele mesmo as produz, no estilo eletrônico/remix e muitas vezes é disponibilizada para download gratuito através do seu site oficial.

Sua última criação foi “This is America”, cujo clipe traz diversas críticas sobre a realidade americana, principalmente em relação às armas e à violência.

Muitas análises foram feitas, tanto por brasileiros quanto por americanos, e foram compiladas pelo site Buzzfeed.

Neste artigo você poderá conferir o que foi analisado pelo Buzzfeed, juntamente com algumas análises extras. Assista ao clipe e tire também as suas conclusões 😉 (Não se esqueça de aumentar o volume!)


1. Este cara cantando com o violão é o ator e músico Calvin The Second. Algumas pessoas acreditam que ele representa uma das primeiras tradições negras de música a ser sucesso nos Estados Unidos: o blues.

É importante lembrar que o blues é um gênero musical que surgiu da união e resistência da comunidade negra dos Estados Unidos no século XIX.


2. Algumas pessoas acreditam que as caretas e a forma de Childish Gambino se movimentar ao longo do clipe tem a ver com o personagem Jim Crown ou os Espetáculos de Menestréis.


Menestréis eram espetáculos em que um público branco e racista pagava para assistir outros homens brancos fazendo black face e imitando negros de modo cômico e estereotipado.

Segundo a historiadora Suzane Jardim, a origem dos menestréis está no personagem Jim Crow, criado por Thomas D. Rice, um comediante nova-iorquino. Em viagem ao sul dos Estados Unidos, ele descobriu o costume da população branca de comparar seus escravos à corvos ("crow" em inglês). Thomas também notou que, nos momentos de descanso, os negros escravizados cantavam uma canção sobre uma figura lendária chamada Jim Crow.

Com essas informações, Thomas teve a ideia de pintar o seu corpo todo de preto e se apresentar em casas de shows, onde cantava uma adaptação da música dos escravos. Nos espetáculos, ele interpretava o que considerava ser o "típico escravo negro": um cara burro, vestido de trapos, que faz trapalhadas e anda de maneira boba.

3. Algumas pessoas também acham que a morte do homem que tocava violão representa a tradição cultural que venceu no final: a do Jim Crow.

Para provar esse ponto, muitos estão comparando a forma como Childish Gambino se posiona para matar o outro homem com esta imagem de Jim Crow.


4. Na sequência, Childish Gambino segue dançando com um grupo de jovens enquanto há um verdadeiro caos no plano de fundo. Há três interpretações possíveis para essas cenas - e isso não significa que elas são opostas entre si.

» A primeira interpretação é de que Gambino faz uma crítica à forma como a população negra é vista atualmente: negros ganham aplausos e atenção apenas com o entretenimento, como se estivessem cumprindo um papel na sociedade. Porém, enquanto isso, a violência é uma realidade no cotidiano dessa comunidade nos Estados Unidos.

» Algumas pessoas viram a mesma cena de outra forma. Para elas, a dança e a música são formas de resistir e sobreviver ao racismo. Essa interpretação vai ao encontro da ideia de que ser feliz num mundo que odeia negros pode ser considerado um ato revolucionário.

» A terceira linha de interpretação é que mesmo que sejam ferramentas de resistência, a dança e a música podem fechar os olhos da juventude para os problemas atuais.


5. As danças feitas pelos estudantes reproduzem movimentos de trap, rap e da dança sul-africana Gwara Gwara. Por esse motivo, alguns ativistas do movimento negro relacionaram o figurino utilizado pelos dançarinos ao uniforme dos estudantes presentes no massacre de Soweto, na África do Sul.

Em 1976, cerca de 15 mil jovens estudantes sul-africanos saíram às ruas para protestar contra o sistema de educação. Era o período do Apartheid e a maioria negra tinha que estudar em condições muito piores do que as da minoria branca.


O principal fator que motivou a revolta dos alunos foi a obrigatoriedade nas escolas do africânder, idioma que tem origem no holandês e era falado pelos brancos, sendo considerado um símbolo da repressão pelos negros. A polícia reprimiu a manifestação com violência e matou mais de 20 estudantes.


6. Em muitas redes sociais você acha pessoas enxergando nesta cena uma referência ao massacre na igreja de Charleston.

Em 2015, um supremacista branco entrou numa igreja de uma comunidade negra dos Estados Unidos e matou nove pessoas.


7. Nos dois momentos em que Childish Gambino utiliza a arma para matar pessoas, surge um rapaz segurando um pano para recolher o revólver com todo o cuidado possível. Em contraponto a isso, os corpos dos negros assassinados são recolhidos de qualquer jeito. Essa diferença de tratamento pode significar que armas importam mais do que vidas negras.

E ainda notaram um outro detalhe. O pano é vermelho e pode sugerir que quem vende armas protege a política de armamento dos Estados Unidos e tem sangue nas mãos - e esse sangue é de pessoas negras.


8. Há uma cena em que um cavaleiro todo de preto aparece em cima de um cavalo branco. Tem circulado uma interpretação de que ele representa a morte.

Além disso, muitos têm dito que o cavalo branco faz referência à Apocalipse 6:8, que fala da morte montada em um cavalo branco.


9. No clipe também aparece um grupo de pessoas - que parecem crianças - encapuzadas e com celulares gravando tudo o que está acontecendo de cima de uma sacada. Para essa cena, tem circulado no Brasil a interpretação de que Childish Gambino critica quem faz militância virtual e ignora os problemas reais da população negra.


10. Porém, em sites americanos, a interpretação é de que os garotos encapuzados representam Stephon Clark, um jovem de 22 anos que foi assassinado neste ano por policiais que confundiram o celular dele com uma arma.

No momento em que os garotos encapuzados aparecem, Childish Gambino canta "This a celly. That's a tool" - que em tradução livre para o português fica "Isso é um celular. É uma ferramenta". Ou seja, além de fazer referência à morte de Stephon, a cena também lembra como o celular tem sido uma ferramenta importante para registrar a violência policial contra a comunidade negra norte-americana.

11. Também teve uma pessoa que se jogou da sacada, a mesma em que as pessoas filmam tudo com o celular. Nos Estados Unidos, especula-se que a cena faz uma crítica ao fato de poucos se importarem com os suicídios no país enquanto muitos estão muito atentos às novas tendências na dança.


12. No final do clipe, Gambino surge em meio a carros antigos e canta "get your money, black man" - que em tradução livre fica "conquiste o seu dinheiro, homem negro". Nessa cena também aparece a cantora SZA. A contradição do cenário, da letra da música e da postura do músicos foi interpretada nos Estados Unidos como uma mensagem de que não há dinheiro que repare os danos causados pelo racismo. Porém, ainda assim, os negros devem manter uma postura de orgulho.


13. No Brasil, essa mesma cena foi entendida como uma forma de dizer que, mesmo que tenhamos ícones negros ascendendo socialmente, a comunidade negra está parada no tempo e seus problemas atuais são os mesmos do passado.


14. Por fim, Childish Gambino corre por um corredor escuro enquanto foge de policiais brancos. Sobre esse momento, alguns acreditam que a cena significa o beco sem saída em que negros vivem, já que os policiais estão muito próximos e irão pegá-los. O terror no rosto do músico mostra que não importa o que uma pessoa negra faça, o racismo sempre irá atingi-la.


15. Há também aqueles que notaram que, enquanto ele praticava assassinatos nada acontecia, porém a partir do momento em que ele fuma maconha, a polícia inicia uma perseguição. Isso demonstra o quanto as “prioridades" estão invertidas.


16. No momento em que a mão de Glover é coberta com o pano vermelho, a cor não representa apenas o sangue. Também é a cor do partido republicano, que é aliado à NRA. Ambos são contra o controle de armas, ressaltando que armas ou o direito a ter uma é mais importante que uma vida realmente.


17. As danças são uma grande sátira. Gambino imita pessoas que são facilmente distraídas de questões sociais por itens materiais, status social e, em geral, atenção e aprovação dos outros. Ele também corresponde a estas letras com o seu desempenho nesta parte no videoclipe. Por exemplo, ele imita uma menina dizendo que ela é "bonita" e um rapper segurando sua virilha e apontando uma arma como se estivessem em um videoclipe.

Muitas das reações a este vídeo em mídias sociais mencionam que os movimentos de dança os distraem do que estava realmente estava acontecendo no vídeo, que é o ponto Gambino quer atravessar. As pessoas estão mais preocupadas com a moda mais recente e dança do que questões sociais como racismo sistêmico e violência armada.


18. Ele faz uma comparação entre um cão e um afro-americano nos Estados Unidos. Um canil restringe cães, semelhante a como um ser humano pode ser aprisionado.

"Você é apenas um grande cachorro" sugere que mesmo aqueles que foram bem sucedidos na indústria da música ainda são criados objetivamente para o divertimento, facilmente mantidos fora da vista do olho público.


Todos estes significados subjacentes atrás das letras e do clipe são uma referência ao tema desta música, do racismo, da violência e do armamento.

Os problemas que o mundo enfrenta relativos ao racismo e à violência não podem mais ser ignorados e grandes artistas como Donald Glover fazem questão de nos lembrar de nunca desistir da luta.

#BeARebel

Com informações de Buzzfeed.

Imagens retiradas do próprio clipe.

#resistêncianegra #preconceito #violência #controledearmas