Buscar
  • Gabrielle Canena

HIPNOSE: MITOS E VERDADES

Atualizado: 22 de Jul de 2019





Hey, Rebel!

Hoje, dia 04 de janeiro é Dia Mundial do Hipnotismo! Sim, dia da hipnose que você já deve estar cansado de ver na TV, ou até mesmo no YouTube (Annyeonghaseyo Pyongers!). Porém, você sabe até que ponto a hipnose é “verdade”? Ou melhor, você “acredita” nas hipnoses?

Neste artigo vamos explicar porquê a hipnose é SIM real e cientificamente reconhecida, além de saber até onde a conhecemos e podemos usufruir dela.

Abordaremos a história, correntes, como ocorre, a hipnose clínica e como ela pode ajudar, o lado ‘perigoso”, os mitos e verdades, níveis de suscetibilidade, o que é possível ser feito sob a hipnose e o que é impossível e uma sequência de vídeos explicando de A a Z sobre o assunto, pelo youtuber e divulgador científico Pirula.

Boa leitura!


O fenômeno científico hipnose sempre esteve presente na história da humanidade. Podemos dizer que a técnica de indução da hipnose passou a ser utilizada na Idade Antiga, atrelada ao poder de cura e a ritos religiosos. Cientificamente, a técnica começou a ser estudada apenas a partir do Séc. XVIII.

Embora Freud (1856-1939) sempre seja lembrado ao se falar em hipnose, quem introduziu o termo foi James Braid (1765-1860), que começou a utilizá-la cientificamente após Franz Aton Mesmer (1734-1815) ter feito estudos e práticas com a técnica no ramo terapêutico.


A hipnose começou a ser praticada no século 18, quando o médico alemão Franz Anton Mesmer defendeu sua tese de doutorado na Universidade de Viena. Mesmer propunha uma ideia estapafúrdia: a atração gravitacional entre a Terra e outros corpos celestes afetava a saúde das pessoas, sendo responsável por vários tipos de doença mental. Por incrível que pareça, a tese foi aceita e Mesmer recebeu o diploma em 1766. Como desgraça nunca vem sozinha, logo ele começou a acreditar em outra besteira – o corpo humano estava cheio de fluidos magnéticos, cujo desequilíbrio era nocivo e deveria ser corrigido. No tratamento, o paciente ficava sentado numa cadeira enquanto Mesmer olhava em seus olhos, pedia que se concentrasse ou tocava em seus braços e mãos – técnicas similares às da hipnose moderna.

Em 1778, depois que não conseguiu curar uma pianista acometida de cegueira nervosa, Mesmer foi expulso de Viena e se instalou em Paris. Mais ousado, ele passou a andar vestido de violeta e a usar uma varinha de condão (objeto que ele inventou). Sua clínica foi o maior sucesso, e em 1784 o rei Luis 16 formou uma comissão de cientistas notáveis, que incluía Antoine Lavoisier e Benjamin Franklin, para estudar os poderes de Mesmer. Eles concluíram que se tratava de um charlatão (a teoria dos fluidos magnéticos, claro, era pura bobagem), mas que tinha alguns poderes: ele representava um perigo para a sociedade, porque supostamente era capaz de “mesmerizar” – palavra que se tornou um sinônimo de enfeitiçar – as pessoas contra a vontade delas.

As técnicas de Mesmer foram proibidas, e a hipnose começou a se transformar em show circense. Mas alguns discípulos continuaram a acreditar na sua eficácia como tratamento. Um deles era o médico escocês James Braid. Em 1843, ele resolveu trocar o nome da mesmerização para torná-la mais aceitável. E cunhou o termo “hipnose” – que vem de Hypnos, a deusa grega do sono. Braid adotou uma abordagem mais científica, e a partir daí a hipnose passou a ser estudada por gente mais séria.


Mesmo assim, a hipnose só começou a ser aceita pela ciência em 1997, quando o psiquiatra americano Henry Szechtman fez uma experiência com 8 voluntários. Eles foram vendados e ouviram uma gravação que repetia a seguinte frase: “O homem não fala muito. Mas, quando ele fala, vale a pena ouvir o que diz”. Szechtman desligou o som e pediu aos voluntários que tentassem imaginar a frase. Em seguida, hipnotizou todo mundo e disse que iria tocar a fita novamente. Era mentira; não havia som nenhum. Mesmo assim, os voluntários disseram ter ouvido a gravação – eles sofreram uma alucinação auditiva por causa da hipnose. Monitorando o cérebro dos voluntários, o cientista descobriu o seguinte. Durante a alucinação e quando a gravação estava tocando de verdade, a atividade do cérebro era idêntica. Já quando as pessoas apenas imaginavam o som, a atividade era diferente. Outros estudos comprovaram esse efeito, e permitiram chegar a uma conclusão definitiva: a hipnose existe, não é fingimento e tem um efeito característico sobre o cérebro – é uma simulação perfeita da realidade, muito mais forte que a imaginação ou a autossugestão. Uma pessoa hipnotizada pode literalmente ver, ouvir e sentir o que é sugerido pelo hipnotizador.


James Esdaile (1808-1868) também foi fundamental para a hipnose, uma vez que realizou aproximadamente 3.000 cirurgias – todas devidamente catalogadas – utilizando apenas a anestesia hipnótica para tirar a dor dos pacientes. Já Sigmund Freud entrou no campo da hipnose após 1885, depois de ter como professor Jean Charcot (1835-1893) – o qual estudou os efeitos do método em pacientes histéricos. Freud seguiu pelo mesmo caminho e o processo que utilizava consistia em fazer o paciente lembrar e relatar durante o transe hipnótico as situações que deram origem ao trauma psicológico, expressando as emoções que acompanhavam a situação. Com a evolução de sua teoria da psicanálise, ele concluiu ser fundamental que o paciente traga à sua própria consciência o que é mantido no inconsciente, isto é, a pessoa tem que estar preparada para compreender seus problemas e lidar com eles. Freud utilizava a hipnose profunda para a obtenção de memórias reprimidas, sem saber que nem todas as pessoas são suscetíveis a ela facilmente, e no fim da vida, ele reconheceu que os estados de leve e médio hipnose produzem melhores efeitos terapêuticos. Ao abandonar esse método, a hipnose caiu numa espécie de ostracismo, sendo retomada na Segunda Guerra Mundial, principalmente por médicos russos. Na Rússia, estudos que relacionavam as técnicas hipnóticas a ponto de vista neurofisiológico davam credibilidade e aceitação científica.

As guerras do Século XX contribuíram para que o estudo da hipnose se alastrasse pelo mundo. A Guerra da Coréia (1950-53), por exemplo, estimulou estudos na Inglaterra e nos Estados Unidos, países em que as Associações Médicas aprovaram oficialmente o uso do método hipnótico como tratamento auxiliar em 1955 e 1958, respectivamente.


A forma de hipnose mais recente e mais difundida atualmente surgiu com Milton Erickson (1901-1980). Erickson foi um psiquiatra americano que estudou profundamente a hipnose e seus fenômenos durante toda a sua vida. Ele repensou a forma clássica da hipnoterapia reformulando toda a compreensão sobre o assunto, bem como suas induções e as formas de se trabalhar com seus fenômenos. Uma de suas maiores contribuições no campo foi a valorização da realidade individual de cada paciente, além de sua “abordagem breve, estratégica e voltada para a solução”, explica o psicólogo clínico Bayard Velloso Galvão, Presidente do Instituto de Hipnoterapia Educativa e Presidente do Instituto Milton H. Erickson - SP . Graças ao psiquiatra americano, a hipnose saiu do esquecimento e passou a ser amplamente usada em tratamentos clínicos.


Segundo o psicólogo clínico Pedro de Azevedo, são três as correntes da hipnoterapia nos dias de hoje: a Clássica, a Ericksoniana e a Transpessoal.


A primeira é a forma utilizada por Freud, um processo de hipnose autoritário. Caracteriza-se basicamente por dar “ordens” ao paciente (“Você vai dormir, você vai levantar a mão”). A hipnose clássica também é a utilizada em shows de ilusionismo, que possuem sua parcela de responsabilidade pelo descrédito da técnica, que muita gente hoje associa apenas a truques de levitação.

A segunda se trata do método desenvolvido por Erickson, no qual o indivíduo é apenas sugerido a se hipnotizar, e ao invés de ordens, recebe sugestões do que se pode buscar em sua mente. Na verdade, a diferença entre essas duas correntes é apenas uma questão de estilo, formas diferentes, porque “toda hipnose é auto-hipnose”, declara Azevedo. Mesmo no modelo clássico, um indivíduo jamais será hipnotizado se ele não quiser que isso aconteça. Assim, toda pessoa que estiver com a possibilidade de uma certa intensidade de atividade psíquica potencialmente direcionável com o que é comunicado por si e/ou por outros, e que queira ser hipnotizada, pode ser hipnotizada.

Já a corrente Transpessoal não é aceita como tratamento clínico porque envolve religião e crença em entidades espirituais e vidas passadas. Ela trata de regressão a outras vidas e contatos espirituais. Como não se pode comprovar cientificamente a existência ou não de um lado espiritual na vida humana, o psicólogo ou psiquiatra não pode associar seu nome a essa corrente. Caso o faça, é alertado pelo Conselho Federal de sua área e, mediante insistência, perde o direito de exercer a profissão. Essa corrente também nutre o sensacionalismo acerca da hipnose, o que gera ainda mais preconceito por parte da comunidade científica e medo por parte das pessoas.


COMO ELA PODE AJUDAR

No Brasil as técnicas do transe hipnótico registravam usos medicinais já em 1832. Porém, a regulamentação do uso da hipnose como recurso auxiliar de tratamento ocorreu somente no Século XX, pelos Conselhos Federais de Odontologia em 1966, de Medicina em 1999, e de Psicologia em 2000. Além de possuir obrigatoriamente o diploma universitário de alguma dessas áreas, é necessário um curso autenticado de hipnoterapia, que pode variar de 60 a 360 horas de carga horária.

As formas de aplicação da hipnose na Medicina e na Odontologia normalmente são a anestesia e a analgesia, que cuidam da eliminação ou do amortecimento de dores no organismo, mas também há casos em que se controla o sangramento, por exemplo, ou outra atividade neural.

Na Psicologia, a hipnose pode ser amplamente utilizada a fim de tratar casos diversos, como: diminuir e neutralizar a dor física (inclusive em partos), diminuir e curar a depressão, diminuir e curar a ansiedade, diminuir e curar traumas, medos e fobias, melhorar a autoestima, melhorar sua concentração, remover distúrbios emocionais, melhorar as noites de sono, ajudar você a emagrecer (mais rápido do que o normal), diminuir e remover o estresse, diminuir e remover frustrações, remover vícios com drogas, álcool, cigarros, melhorar a auto-estima, resolver problemas sexuais, etc.

Nesse caso, o hipnólogo não busca apenas modificar as sensações do paciente, mas procura entender as causas dos problemas através de um exercício de reflexão e relaxamento.

Pesquisas recentes também constataram, de maneira surpreendente, efeitos fisiológicos da hipnose: há indícios de que possa ajudar no tratamento de hipertensão e de problemas gastrointestinais e no sistema imunológico. Tudo isso depende, claro, do seu grau de sensibilidade e suscetibilidade (como veremos daqui a pouco).




Um teste foi feito pelo neurocientista Pierre Rainville, da Universidade de Montreal. Ele pediu que voluntários mergulhassem a mão em tigelas com água muito quente (a 47 oC). Como estavam hipnotizadas, as cobaias não sentiam dor. Rainville observou o cérebro daquelas pessoas e descobriu algo estranho. O sistema límbico, que é um pedaço primitivo do cérebro que nós herdamos dos répteis e processa os sinais que vêm do corpo, como a dor, estava operando normalmente. Mas o neocórtex, uma região cerebral que só existe nos mamíferos avançados e é responsável pela nossa consciência, ignorava os sinais do sistema límbico. É como se, durante a hipnose, o “cérebro humano” parasse de se comunicar com o “cérebro reptiliano”.

É por isso que a hipnose tem efeitos tão profundos. A pessoa não fica dormindo. Fica acordada, consciente e sabendo que está sendo hipnotizada. A diferença é que, como o neocórtex é privado das informações fornecidas pelo sistema límbico (que além de processar a dor também controla a memória e reações como desconfiança, vergonha, medo, fome, iniciativa, prazer e desejo sexual), a consciência fica sem reservas nem referências – e, por isso, totalmente vulnerável às sugestões do hipnotizador.

A eficácia de um transe hipnótico pode ser explicada pela ocorrência de algumas reações fisiológicas no corpo. Durante uma sessão, alguns metabolismos complexos do corpo humano são ativados, diminuindo o nervosismo e a ansiedade do corpo, processo que possibilita uma maior oxigenação das células do organismo. Substâncias denominadas neuropeptídios, como as endorfinas, por exemplo, são depositadas na corrente sanguínea, revertendo o estado psicológico de angústia, apreensão, medo ou ansiedade, para um estado de bem-estar. Para o intuito de analgesia ou anestesia, basta essa sensação permanente para que se alcancem os resultados. Na Psicologia e na Psiquiatria, é desse modo que o paciente se torna mais suscetível a trazer à tona fatos passados que possam ter sido esquecidos por algum motivo, além de estar mais receptivo a novas propostas de comportamento e de reação às coisas que o cercam.

No caso de algumas doenças de causa fisiológica, a hipnose pode ajudar no sentido de melhora no sistema imunológico do paciente, acompanhada de tratamento tradicional dado pela medicina.


Podemos concordar que todos são sugestionáveis, ​​em algum grau. E que a sugestionabilidade varia de indivíduo para indivíduo.

Mas uma coisa é fato: quanto mais velho um indivíduo se torna, menos sugestionável ele é.

Se o sujeito não treina a hipnose em sua vida, se não pratica a respiração ou a habilidade de visualização, sua suscetibilidade diminuirá com o tempo. Por isso, crianças e adolescentes entram facilmente em transe. Elas possuem uma imaginação muito forte.

Então, se você está se perguntando se você é suscetível ao transe hipnótico, a categorização é direta: Se você fantasia ou sonha acordado com frequência, então você é muito mais suscetível do que se fosse uma pessoa mais analítica.

A hipnose é muito mais comum do que se imagina. Você já deve ter se auto-hipnotizado milhares de vezes e nem percebeu. Um exemplo: sabe quando você está indo para algum lugar, mas acaba se distraindo com os próprios pensamentos e ao chegar nem se lembra do caminho que fez? É uma forma fraquinha de hipnose. “O estado hipnótico é parecido com o que acontece quando você fica absorto, lendo um livro ou vendo um filme”, afirma o psiquiatra e especialista em hipnose David Spiegel, da Universidade Stanford. É um estado de grande atenção, em que o cérebro foca em uma coisa e se desliga do resto. Mas não tem nada de extraordinário; é um mecanismo que faz parte do funcionamento normal do cérebro.

Existem vários métodos de hipnotizar, mas todos seguem a mesma lógica. Tanto faz se o hipnólogo balança um objeto ou diz palavras suaves – o que conta é prender a atenção da pessoa e reduzir seu grau de inibição. Se essas duas condições forem atendidas, pronto: você conseguiu calar o sistema límbico e cativar o neocórtex, e a pessoa está hipnotizada. “O que você diz para hipnotizar a pessoa não é tão importante. O que importa é o seu jeito, o seu tom de voz”, ensina Fabio Puentes.

Para o psicólogo americano Michael Nash, autor de dezenas de estudos sobre hipnose e organizador do maior livro sobre o assunto, o Oxford Handbook of Hypnosis, nossa suscetibilidade à hipnose pode ser obra da seleção natural. Ao longo da evolução da humanidade, em que as situações de dor eram muito mais comuns do que hoje (a anestesia como a conhecemos só foi inventada no século 19), quem tinha mais capacidade de ignorar o próprio sistema límbico e suportar o sofrimento físico levou vantagem na vida. Viveu mais e gerou mais descendentes, que foram espalhando essa característica pela humanidade. É por isso que, hoje, 80% da população mundial é hipnotizável em algum grau. Mas como medir o grau de sensibilidade à hipnose? Os métodos mais famosos são a Escala Grupal de Harvard, criada em 1962, e a Escala Stanford (clique aqui para ler e entender a escala), de 1959. Este último, individual, é o mais usado pelos pesquisadores. Consiste num teste de mais ou menos 50 minutos, com 3 sessões de 12 exercícios que testam habilidades hipnóticas cada vez mais difíceis – como regressar mentalmente à infância, ficar sem poder abrir os olhos, obedecer a uma sugestão pós-hipnótica (pular da cadeira sempre que ouvir determinado som, por exemplo), tornar-se incapaz de sentir odores fortes e desagradáveis, e o exercício mais difícil de todos, esquecer tudo o que aconteceu durante a sessão. Esses testes foram aplicados em milhares de pessoas, ao longo de várias décadas, e descobriram várias coisas. A sensibilidade à hipnose se mantém estável durante a vida (é a mesma na infância, na idade adulta e na velhice), não tem relação com o sexo, a escolaridade ou a inteligência das pessoas. E é hereditária.

Existe um teste rápido que você mesmo pode fazer. Leia a frase a seguir: “Quando o carro vermelho buzinou, o cachorro preto latiu e chegou ao portão da casa amarela”. Agora feche os olhos e responda: quais são as cores das palavras desta frase? Não estou perguntando os nomes escritos; quero saber as cores da tinta que usamos para imprimir as palavras em destaque. Se o seu cérebro é um pouco hipnotizável, como o de 80% das pessoas, você terá alguma dificuldade para responder – porque sua mente aprendeu e sabe, instintivamente, que o significado das palavras é mais importante que a cor delas. Já se você for extremamente hipnotizável, como 15% da população, respondeu no ato e sem problemas.

Isso se deve a uma diferença estrutural no cérebro. Pesquisas feitas na Universidade de Virgínia, nos EUA, revelaram que o cérebro das pessoas altamente hipnotizáveis possui duas características marcantes. É mais assimétrico – a divisão de tarefas entre os dois hemisférios do cérebro é mais intensa do que em pessoas comuns. E seu corpo caloso, estrutura que conecta o hemisfério esquerdo ao direito, é em média 31,8% maior. Os cientistas especulam que a superconexão faça as informações fluir mais facilmente dentro do neocórtex (que se divide entre os dois hemisférios do cérebro). E por isso o cérebro tenha maior facilidade em suprimir, ou ignorar, a atuação do sistema límbico.


Um estudo inovador foi realizado por um grupo de pesquisadores liderados por David Spiegel, um dos maiores especialistas em ciência da hipnose, da universidade de Stanford (EUA). Utilizando escalas de suscetibilidade os autores selecionaram sujeitos saudáveis que foram ranqueados como “muito” ou “pouco” susceptíveis à hipnose para passarem por indução de hipnose enquanto dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional.

As imagens cerebrais obtidas na ressonância mostraram resultados interessantes. Áreas cerebrais ativadas durante desafios ou situações de estresse mostraram atividade reduzida em sujeitos muito susceptíveis à hipnose, quando estes eram instruídos a se sentirem felizes ou se imaginarem de férias. Além disso, áreas envolvidas na percepção do corpo se tornaram mais sincronizadas durante os eventos de hipnose no grupo mais susceptível, o que indica uma maior concentração no corpo e no controle dos movimentos. Porém, quanto maior o grau de hipnose, menor foi a conectividade entre áreas relacionadas à autoconsciência, o que indica um maior grau de dissociação entre ações e reflexões – ou seja, “agir sem pensar”. Nenhum efeito da hipnose foi detectado nos cérebros do grupo menos susceptível.

Esse estudo provê explicações neurológicas para o que ocorre durante a hipnose. O mais interessante é pensar em como esses achados podem auxiliar o tratamento de doenças com o uso da hipnoterapia. Esses resultados são relevantes até mesmo para pessoas menos susceptíveis à hipnose na medida em que é possível aplicar estimulação cerebral direcionada às áreas apontadas pelo estudo para simular os efeitos da hipnoterapia.


No filme Sob o Domínio do Mal (“The Manchurian Candidate”, 1962), Frank Sinatra faz o papel de um major americano que é hipnotizado pelos comunistas para matar o presidente dos EUA quando ouvir um sinal por telefone. Isso é possível? Mais ou menos. A sugestão pós-hipnótica realmente existe – é possível programar o cérebro de pessoas altamente suscetíveis. Mas só com instruções muito simples (pular ao ouvir um sinal). Ela não funciona com ordens complexas, que envolvam várias etapas de raciocínio ou sejam contra a índole do indivíduo; se a pessoa normalmente não mataria o presidente, não irá fazê-lo sob hipnose. Além disso, é possível resistir à sugestão pós-hipnótica, que costuma desaparecer após alguns minutos (em casos extremos, alguns dias). Ou seja: ao contrário da crença popular, uma pessoa hipnotizada não vira um robô nem fica em transe para sempre se o hipnotizador sumir. Isso não quer dizer que os hipnotizados não possam ser induzidos a fazer coisas que não querem (ou não existiria o truque de fazê-los comer cebola achando que é maçã).


Também é possível hipnotizar as pessoas mais sensíveis contra a vontade delas, usando truques para pegá-las de surpresa. O psiquiatra americano Milton Erickson costumava dominar seus pacientes com um simples aperto de mão. Ele massageava o pulso do paciente, que ia ficando relaxado e sem reação. Seja como for, não é preciso ter medo. Mesmo se você for altamente sensível, basta ficar longe dos hipnotizadores ou não prestar atenção neles. Afinal, hipnose é um estado extremo de atenção. Se você não presta atenção, não pode ser hipnotizado. Também não há evidências de que a hipnose cause qualquer dano. Ela só tem um risco: pode induzir falsas memórias.

É isso aí. Ir a um terapeuta, sentar-se no divã e fazer hipnose com o objetivo de acessar memórias reprimidas é bastante perigoso. Como desconecta o sistema límbico, que é o responsável pela formação e manutenção das memórias, a hipnose realmente pode levar a falsas lembranças. Se um terapeuta estiver convencido de que um paciente sofreu abuso na infância, por exemplo, pode hipnotizá-lo para que ele tente se recordar do fato – e acabar implantando sem querer (ou de propósito) a memória de uma coisa que nunca aconteceu. Isso começou a ficar evidente nos anos 90, quando uma série de casos foram parar na Justiça dos EUA. Depois da hipnose, elas passaram a se lembrar de acontecimentos medonhos, como abuso sexual e rituais satânicos, que na verdade jamais tinham ocorrido. Isso causou um grande escândalo, e levou a Universidade de Washington a fazer uma série de estudos impressionantes sobre o assunto.

Os pesquisadores descobriram que, sob hipnose, 70% das pessoas ficam receptivas a falsas memórias. E as terapias que prometem acessar memórias reprimidas são muito nocivas: fazem com que os pacientes corram maior risco de perder o emprego e a vida social e tenham até 500% mais possibilidade de ir parar num hospital psiquiátrico. Por isso, hoje esse tratamento é desaconselhado pela Associação Médica Americana. Se você for fazer algum tipo de hipnose, evite técnicas e exercícios que mexam com a memória. Tirando isso, não há problema. A hipnose é uma ferramenta poderosa, que já vem embutida no cérebro e pode ser usada de maneira positiva. O pior que pode acontecer é ela não funcionar com você.


A hipnose, apesar da definição vir de um local científico, é um tema polêmico.

Há muitos conceitos mal entendidos que a mistificam, o que leva as pessoas a não a levarem a sério. Isso vem também desde seus primeiros usos na Idade Média, anterior a James Braid.

O mito da hipnose é apresentado na mídia, em histórias como “Mogli: o menino lobo” (Disney; 1968, 2016) e “Escorpião de Jade” (Woody Allen; 2001).


Comumente na forma de uma história que inclui a interação entre hipnotizador e hipnotizado e resultados a curto e longo prazo.

Nestas tramas, a hipnose é apresentada como um estado instantâneo, semiconsciente e semelhante ao sono. Este é produzido por um hipnotizador poderoso que tem uma influência quase milagrosa no participante submisso hipnotizado. Também seguido de devastadoras consequências a longo prazo.

Vamos ver agora o que é verdade e possível e o que é impossível, mito.

É POSSÍVEL

O que a hipnose realmente pode fazer:

Anestesiar uma pessoa

Funciona. Em 1845, antes da popularização da anestesia, o médico escocês James Esdaile já usava a hipnose em cirurgias e amputações.

Curar tabagismo, compulsões e vícios em geral

Funciona. Mas o tratamento também deve ter terapia, e é preciso refazer periodicamente as sessões hipnóticas.

Implantar memórias

Funciona. Há casos de falsas memórias que acabaram na Justiça e começaram na atuação desastrada (ou maldosa) de hipnoterapeutas.

Sugestões pós-hipnóticas

Funciona. É possível condicionar uma pessoa para que ela reaja a certos sinais – como pular toda vez que ouvir determinado som, por exemplo.

Hipnotizar alguém à força

Funciona. Existem técnicas que permitem hipnotizar a vítima sem que ela perceba. Mas isso só dá certo se você dedicar atenção ao hipnotizador.

NÃO É POSSÍVEL

Veja em que situações a hipnose não tem o menor efeito:

Apagar memórias

Não funciona. Pessoas altamente hipnotizáveis podem se esquecer de acontecimentos, mas acabam se lembrando deles após algum tempo.

Acessar memórias reprimidas

Não funciona. As supostas lembranças (que no Texas são aceitas como prova judicial) são contaminadas pela imaginação.

Hipnotizar bichos

Não funciona. Hipnose é um fenômeno da parte mais moderna do cérebro humano. O que acontece com animais é apenas catatonia (paralisia).

Controle da mente

Não funciona. Mesmo pessoas altamente hipnotizáveis não se tornam zumbis. E a hipnose cessa após alguns minutos (ou quando o hipnólogo vai embora).

Regressão a vidas passadas

Não funciona. Mesmo porque a reencarnação não é comprovada cientificamente.


SÉRIE SOBRE HIPNOSE

O youtuber e divulgador científico Pirula já fez uma sequência de vídeos sobre a Hipnose, acompanhado de Alberto Dell'isola, um dos maiores nomes da hipnose no Brasil. A série de 4 vídeos explica os seguintes pontos:

Vídeo 1. Separando ciência de charlatanismo.

Vídeo 2. Explicando memória, como se relaciona com hipnose e os mecanismos, o funcionamento geral da hipnose.

Vídeo 3. Regressão, possessões e exorcismos: serão obras de espíritos ou do demônio, ou pode a hipnose explicar esses fatos?

Vídeo 4. Explicando memória, como se relaciona com hipnose e os mecanismos, o funcionamento geral da hipnose.

Não deixe de conferir, vale à pena! Assista já ao primeiro vídeo da sequência:


#BeARebel

Com informações de UFRGS, Super Interessante, Administradores, Eu Sem Fronteiras, Saense, Alberto Dell’isola e Canal do Pirula.

#ciência #hipnose #hipnotismo #medicina #psicologia